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SAÚDE

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  • SAÚDE
    Após o desastre
    aumentaram as notificações
    de casos de doenças respiratórias
    e abortos, entre outros agravos
Foto: José Cruz/Agência Brasil

O Projeto Rio Doce tem como uma das frentes de atuação avaliar o impacto do rompimento da Barragem de Fundão na saúde da população atingida. Sabe-se que os desastres naturais ou aqueles causados por atividades humanas podem produzir prejuízos tanto à saúde física quanto à saúde mental de comunidades impactadas. Esses danos, por sua vez, se manifestam tanto no curto, quanto no médio e longo prazo.
Com esse propósito, a equipe da FGV analisou diferentes bancos de dados do Sistema de Informações do Ministério da Saúde (DATASUS) com o objetivo de identificar padrões de saúde da população antes e depois do desastre.
Essa frente de investigação ainda deve passar por coleta e análise de dados primários nos municípios atingidos e de controle, para uma averiguação mais completa.
De qualquer maneira, foi possível observar, no atual estágio dos estudos, um aumento da incidência de diversos tipos de doenças infectocontagiosas, de transtornos mentais e de abortos.

Foram analisadas seis bases de dados do Ministério da Saúde:

Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA)

Sistema de Informações de Agravos de Notificações (SINAN)

Sistema de Informações de Nascidos Vivos (SINASC)

Sistema de Informações Hospitalares (SIH)

Sistemas de Informações de Mortalidade (SIM)

Programa Nacional de Imunizações (PNI)

(Ver Box)

Esses dados foram pesquisados comparando-se o período de três anos antes e três anos depois do desastre (de 2012 a 2018). Em relação às localidades, a investigação recaiu sobre a região atingida (os 45 municípios atingidos pelo rompimento) e uma região selecionada para controle (formada por 85 municípios), o que ajudou a refinar a análise e identificar os possíveis danos provocados somente pelo desastre. Os municípios de controle pertencem à bacia do Rio Doce e compartilham de realidades locais similares às do grupo de atingidos e atingidas.

 

Os relatórios produzidos resultam de uma análise descritiva exploratória dos dados secundários e é preciso registrar que eles possuem limitações importantes por conta da subnotificação e de algumas inconsistências, derivadas dos registros não sistemáticos em todos os bancos e municípios. Isso reforça a necessidade de aprofundamento das investigações com a coleta de dados primários.

Conforme os dados do SINAN, houve aumento da notificação de doenças como toxoplasmose congênita, síndrome de Creutzfeldt-Jacob, síndrome respiratória aguda, doença aguda pelo vírus Zika, influenza por novo subtipo, febre amarela, doenças causadas por protozoários afetando gestação, parto e puerpério, leishmaniose tegumentar aguda, transtorno mental, sífilis congênita, sífilis em gestante e vírus Chikungunya.

Esse aumento de incidências pode estar associado à grande alteração ambiental causada pelo desastre, que modificou o equilíbrio ecológico de parasitas e vetores no caso das infecções e pelo grande impacto nos modos de vida no caso das afecções mentais. Além disso, foi identificado também um aumento significativo nos casos de violência doméstica.

 

Aumento de doenças respiratórias e infectocontagiosas (Sinan)

Os municípios atingidos registraram aumento expressivo da incidência (por 100 mil habitantes) de determinados agravos, principalmente de doenças respiratórias e infecciosas, em comparação aos da região de controle:

*Quantas vezes o morador da região atingida tem mais chance de sofrer o agravo em comparação a um morador dos municípios de da região de controle **Não é possível calcular o Risco Relativo quando a incidência nos grupos de controle é zero. RR menores que 1 revelam uma diferença não significativa *** Variação zero significa que não houve alteração na incidência após o desastre.

Aumento de doenças respiratórias e infectocontagiosas (SIA)

A análise do banco de dados SIA permite concluir que houve um aumento de incidência de dengue, febre pelo vírus Zika, febre Chikungunya, febre amarela, leishmaniose cutânea, diarreias, uso de psicotrópicos e incidência de transtornos mentais, suicídios, bronquites, pneumonia, dermatites, abortos e malária.

Cai o número de nascimentos (Sinasc)

No banco SINASC percebeu-se uma diminuição maior no número de nascimentos entre os municípios atingidos, assim como do peso ao nascer, quando comparado com os municípios controle. Embora tais achados não tenha sejam significativos do ponto de vista estatístico, podem representar uma tendência relacionada ao aumento de abortos naqueles municípios após o rompimento da barragem, análise que pode ser esclarecida com investigações futuras.

Mais internações em hospitais por Chikungunya (SIH)

Os dados obtidos do SIH indicam uma situação preocupante nos municípios atingidos em relação ao aumento de abortos, casos de câncer e a uma proliferação de doenças infecciosas transmitidas por vetores (arbovírus), particularmente, febre amarela, vírus Chikungunya e febre maculosa.

Incidências dos principais agravos de hospitalizações por 100 mil habitantes, três anos depois do desastre.

Pequeno aumento na mortalidade nos municípios atingidos

A análise do SIM mostrou que os municípios atingidos apresentaram, após o rompimento da Barragem de Fundão, idade média ao morrer (63 anos) três anos mais cedo que os controles (66 anos). Além disso, os atingidos apresentaram maior mortalidade pós-rompimento da barragem por arboviroses, com destaque para a febre amarela e para diversos tipos de neoplasias (câncer). O estudo a partir dos dados do PNI não mostrou diferenças significativas de incidências de agravos entre as populações atingidas e de controle.

Agravos e riscos relacionados à mortalidade nos municípios atingidos e de controle depois do desastre (ocorrências por 100 mil habitantes)
Importante saber

O Projeto Rio Doce planejou - e ainda espera realizar - estudos com dados primários, ou seja, com informações coletadas diretamente com a população, o que inclui exames laboratoriais com amostras representativas das regiões atingida e de controle. Esse diagnóstico permitirá aprofundar as hipóteses levantadas com base nas informações secundárias, baseadas nos bancos de dados do Ministério da Saúde. Essa etapa do trabalho, porém, ainda não pôde ser realizada por causa de recursos judiciais movidas pela Samarco Mineração S/A, proprietária da barragem que provocou o desastre.

Os abortos aumentaram

Após o rompimento da barragem, os registros de hospitalizações e atendimentos ambulatoriais revelam aumento da incidência(1) de abortos nas áreas atingidas.
O tema merece investigação mais profunda, considerando que o risco relativo do agravo chega a ser quatro vezes maior entre mulheres dos municípios atingidos, do que dos de controle.

Incidência(1) de internação hospitalares relativas a abortos nos três anos posteriores ao rompimento da barragem:

O que mostram os atestados de óbito

A análise do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) revela um risco relativo bastante elevado de mortalidade por arboviroses - doenças transmitidas a humanos por picada de insetos e aracnídeos, como a dengue hemorrágica - e por doenças respiratórias, após o rompimento da barragem:

Incidência(1) de internações hospitalares relativas a abortos nos três anos posteriores ao rompimento da barragem:
Mortalidade(1) nos municípios atingidos e de controle
depois(2) do desastre

(1) Por 100 mil habitantes. (2) Três anos após o rompimento. (3) Quantas vezes a população da região atingida tinha mais chances de morrer da doença em comparação à população da região de controle.

(1) Por 100 mil habitantes. (2) O Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), exclui mortes por violência, abordado em outro estudo do Projeto Rio Doce.

As mortes por câncer

A mortalidade(1) por determinados tipos de câncer revelou-se significativamente mais alta nos municípios atingidos, em comparação aos de controle, nos dois períodos analisados, segundo análise do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM)(2) do DATASUS. A diferença entre os dois grupos aumentou ainda mais após o rompimento:

Importante saber

Os bancos de dados do DATASUS utilizados nesse estudo foram os seguintes:

1) Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), que tem registros de notificações e investigações de casos de doenças e agravos que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória.

2) Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA), que registra os atendimentos prestados pelas unidades básicas de saúde e os agravos que levam a população aos atendimentos ambulatoriais.

3) Sistema de Informações de Nascidos Vivos (SINASC), reúne informações epidemiológicas da saúde da mulher e dos recém-nascidos, com base nas em dados dos nascimentos ocorridos em todo o Brasil.

4) Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), que reúne regularmente dados sobre mortalidade no país.

5) Sistema de Informações de Hospitalizações (SIH), que registra todos os atendimentos provenientes de internações hospitalares que foram financiadas pelo SUS. Tais informações são usadas como base dos pagamentos dos estabelecimentos de saúde.

6) Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunização (PNI), que registra as vacinas aplicadas e o quantitativo populacional vacinado, agregados por faixa etária, em determinado intervalo de tempo, por área geográfica.